Ontem ao ler este post da flor percebi que ia ter que voltar a pôr o dedo na ferida.
Por muito que me custe. Não ficaria bem comigo se não o fizesse.
Também eu carrego muita raiva e, como lá disse, não é de agora em virtude destas almas que se foram. Também eu nasci e cresci no interior rural e desde que tenho consciência de mim que me lembro do cheiro a terra queimada, de ver in loco gente a chorar, desesperada. Uns anos tocava a uns, uns anos tocava a outros. Solidariedade de uns anos para os outros. Agora ajudas-me tu, para o ano ajudo-te eu. Morria sempre gente, o sicrano ou o beltrano, do sítio de além ou do de aquém, que munido de giestas foi abafar o fogo. Que os bombeiros haviam chegado tarde. E se não tivessem sido os homens das giestas então é que haveria de ter sido bonito.
Todos. Todos. Todos os anos. Qual desgraça anunciada. Sempre o mesmo filme. Sempre. No telejornal eram certas como a morte a reportagem sobre os incêndios e a reportagem das filas de trânsito na Nacional Azul a caminho do Algarve. Certo como a noite que chega depois do dia. Assim continua. Tirando a parte da nacional. As nacionais que agora só estão lá como alternativa, como via de fuga. Ou não.
Fatal como o destino. Os verões da minha infância/juventude cheiraram invariavelmente a terra queimada. Mais perto ou mais longe. Mas o cheiro chegava sempre. Durante vários dias respirava cinzas. Triste fado!
Não é de agora, nem deste governo nem do anterior, nem do passado. Nunca ninguém quis saber. Nunca ninguém fez nada com pés e cabeça, com futuro, com estrutura.
Décadas depois tudo igual. Sempre os mesmos desgraçado, desgarrados, a sofrer na pele. Portugueses de segunda, praticamente tribais.
Nunca ninguém quis saber e assim continuará…
Porquê?!
Porque planear algo neste foro custa dinheiro, muito dinheiro, e levará tempo, não muito mas ainda assim tempo, a dar frutos. Não compensa. Na nossa cultura política imediatista, populista, tachista e oportunista, não compensa investir. Mais vale ter fé na Nossa Senhora e esperar que os hectares ardidos não sejam mais que os do governo anterior. Isso basta para se celebrar.
Porque a nossa floresta não é economicamente rentável e porque quem sofre as consequências são meia dúzia de gatos pingados sem expressão eleitoral. E toda a falta de estrutura, gestão e organização se baseia simplesmente nisto. É dinheiro sem retorno.
Porque é utópica a questão de obrigar os privados a limpar os terrenos. Os “privados” de que falamos são os pobres, os tais difíceis de salvar como disse o nosso PR. Os terrenos de que falamos são terrenos agora sem valor económico, terrenos não registados, terrenos que foram herdados ou comprados a vizinhos com o dinheiro da venda dos vitelos numa altura em que ainda se tinha força para fazer alguma coisa e antes dos filhos emigrarem para a França. Não são do Estado, pois não, mas também não se sabe de quem são. São terrenos de ninguém. São delimitados por pedras e árvores e quando muito haverá um papel escrito à mão a confirmar a transação. São micro parcelas de terreno de 400 m2. Já nem sequer existem caminhos para se chegar aos do monte. Só a pé com uma catana a desbravar caminho por entre os terrenos vizinhos, qual Rambo.
A sério? Como se faz? Como se pode obrigar?... Não obriga. Assume o Estado a limpeza, e é se quer. Por outro lado, quem os registou, tem ali nada mais nada menos que um fardo e um mundo de preocupações. Tomaram muitos privados, donos de terrenos, ser nesta altura expropriados. (Outra coisa, será a gestão da floresta feita pelas concessionárias das estradas, por exemplo… Não é disso que falo.)
Porque o pôr militares, reclusos, beneficiários do subsídio de desemprego ou de outros a limpar a mata não funciona. Simplesmente não funciona. É tentado há mais de dez anos, com despachos em Diário da República e tudo, como manda a sapatilha, mas… Na prática não funcionou. Porquê não sei, mas não funcionou.
Porque a reflorestação se faz à base de pinheiros e eucaliptos (estes, originários da vizinha Austrália, que já representam um quarto da floresta nacional). Porque os carvalhos ou sobreiros demoram muito tempo a crescer (é preciso esperar 25 anos até se conseguir tirar cortiça de um sobreiro) e porque, já se sabe, montes pelados ainda que nos entretantos são muito pouco sexy. Era preciso haver uma concertação praticamente intergeracional entre os diversos governos. Não vai acontecer. Porque o eucalipto ainda que sendo inflamável dificilmente morre num fogo. Diziam-me os velhos, quando fizeram da Serra Marão um enorme eucaliptal, algures nos inícios dos 90s, que eram árvores demoníacas aquelas. Que a cada fogo por que passavam, recuperavam cada vez mais rápido e mais fortes. Parecia que gostavam de fogo, as diabas. Refloresta-se com eucalipto porque é mais fácil. Pronto. E até cheiram bem e tudo. E são verdes. Pronto, está resolvido. Secam tudo o que há à volta, mas isso não interessa. Ninguém sabe, ninguém quer saber, o que importa é haver sombra para aquele piquenique pitoresco que uma vez no ano decidimos fazer para proporcionar às nossas crianças o contacto com a natureza. Cá agora questiúnculas de árvores. É tudo verde, carai. Tudo igual. (Nesta altura dos post já nem sei se ria se chore...)
Porque há três estruturas com responsabilidades na defesa da floresta e gestão de incêndios. Não uma: Três! O Instituto de Conservação da Natureza (Ministério de Agricultura), a GNR e a Proteção Civil (ambos do Ministério da Administração Interna). Ora, pois que já devíamos ter a capacidade analítica de perceber que estas co-responsabilidades entre instituições nunca funcionam, apesar de, lá está, na teoria serem muito lindas. Não funcionam porque cada instituição é uma capela, cada capela acha-se mais importante que a outra, cada capela tem os seus directores e presidentes, cada qual com o seu umbigo. Quando corre bem, dão os três pulos de alegria, com as conversas dentro de cada capela a ir ao encontro do “Se não fossemos nós…”. Cada uma das três… “Ai se não fossemos nós…”. Quando dá para o torto, cada uma das três sacode a água do capote o mais ferozmente que consegue. “Não, desculpa, isto é da responsabilidade deles…” Não dá. Não funciona. Não há abnegação nem maturidade para tal. Muito lindo no papel, mas não dá.
Porque… E como já referi anteriormente num post sobre o Vara e a CGD não se podem pôr bons… sei lá, amigos, digamos assim, aos comandos de um Boeing só porque estes têm carta de ligeiros. Não dá. Vai dar merda. Eu conheço gente muito capaz em muita coisa. O meu marido, por exemplo, é muito capaz lá nos algoritmos dele. Eu também lhe tenho estima e é muito boa pessoa. E também percebe de números e é um curioso da biologia. Mas nunca, em consciência e responsabilidade, o indicaria para gerir, sei lá, o hospital de São João. Só poderia dar merda, não é?! Pois é… (Mas o meu marido é uma pessoa muito capaz, que disso não restam dúvidas.) E temos um secretário de Estado que é um porreiro, grande amigo de Costa, e de Vara já agora, e temos uma ministra que, pronto, alguém com ligações partidárias me disse que andou com ela ao colo. Pronto, vá. Por si só isso não lhe tira mérito é verdade, todos andámos ao colo de alguém. Mas essa ministra recusa ajuda, pronta à espera na fronteira. Com o argumento de que muita gente atrapalha… É perigoso. Pois é. Verdade. Gente impreparada, munida de giestas a tentar abafar o fogo ao pé de bombeiros são mais uma fonte de preocupação que uma ajuda. Concordamos todos, senhora ministra. Não somos estúpidos. Agora... Ter gente formada e preparada a pedir para ajudar, e o pobre em aflições levantar problemas… Eu também não percebo nada do assunto, que não percebo…. Mas às tantas, nem que fosse só para 60 dos nossos irem descansar depois de dias enfiados naquele inferno… Se calhar… Hum?! Assim já não era muita gente. Eram os mesmo… Saíam 60 nossos, entravam 60 deles...
Não?! Porque não?
Porque… Às tantas… Mais vale deixar arder que mostrar ao vizinho muito melhor sucedido na matéria que não fazemos a mais pálida ideia do que andamos a fazer. Verdade. Como diz o povo, não temos de dar a nossa vida a saber a ninguém e antes parecer estúpido que mostrar efectivamente que o somos… Uma coisa são meios aéreos… Andam lá no alto, um ou outro, nada sabem e pouco vêem do que se passa no terreno. Isso, tudo muito bem. Outra coisa é termos os vizinhos a meterem o nariz no nosso guisado. Logo eles, que já fizerem parangonas a dizer que não estamos preparados para lidar com isto… Filhos de uma grandessíssima, mãe!
Mas agora penso, talvez seja esta pressão externa que leve alguém a fazer alguma coisa. Têm feito grandes destaques noticiosos a propósito desta nossa triste situação (aqui, por exemplo). Talvez o espicaçar do orgulho leve alguém a fazer alguma coisa.
Talvez os espanhóis nos estejam a ajudar mais do que aquilo que pensam.
Resumindo e concluindo.
A conservação da floresta é uma prioridade. É. Toda a gente parece concordar. Alguma coisa tem que ser feita. Pois tem. Toda a gente parece concordar.
Mas…
Tudo isso custará dinheiro. Muito dinheiro. Ou é uma cagada engendrada às três pancadas...
(entretanto... Partidos querem aprovar reforma florestal num mês: http://observador.pt/2017/06/21/partidos-querem-aprovar-reforma-florestal-num-mes/
A sério?! Here we go again...)
Mas dizia eu, ou é uma coisa mal amanhada e engendrada às três pancadas para calar o povo, mais do mesmo portanto, ou custará muito, muito, dinheiro.
Acontece no entanto que...
O orçamento de Estado não estica.
Para fazer a tal limpeza e conservação estrutural da floresta, que o país brada de dedo em riste, há dinheiro que não vai ir para outro lado. O dinheiro que se investir na floresta vai falhar na Educação, ou na Saúde, ou na Ciência, ou na Segurança, ou na Segurança social, ou na… Não sei aonde... Mas vai falhar!
E agora penso… Se questionados, quantos portugueses estariam dispostos a abdicar de algo que os afecte diretamente em prol da floresta e dos desterrados? Quantos, hum?! Não sei se seriam assim tantos...
