Adormeceu e acordou tranquilamente, sem qualquer sinal de nervosismo. Mochila nova às costas e Vs de vitória para a fotografia. Saímos de casa muito cedo e fomos pôr o irmão à creche. Fizemos grande parte do caminho a pé e só aí me apercebi da possibilidade de algum nervosismo porque nos apertava a mão com muita força, com o braço contraído. (E logo ele que raramente dá a mão por livre e espontânea vontade...) De qualquer das formas sentiamo-lo seguro e confiante e por isso lá íamos nós também, seguros e confiantes.
Chegámos. Cumprimentámos caras conhecidas. Aliviados como os miúdos por, enfim, termos ali alguém que... "Olá, estamos juntos nisto! Sim, é uma parvoíce, mas ainda bem que também estão aqui."
Entrámos na sala.
- "Aonde te queres sentar, filho?"
- "Lá ao fundo!"
Pois que assim seja.
O amigo T. que veio com ele da outra escola sentou-se ao seu lado.
Primeira tarefa: Numa cartolina partilhada com o colega de carteira fazer um desenho sobre o começo da escola.
"Espectáculo! Começamos bem...", pensei eu. É que o Jr. detesta desenhar. Detesta. Não é uma questão de não saber, de não ter jeito. É uma questão de sofrer quando tem de o fazer. É castigo.
O amigo T. começou logo, todo animado: Um barco enorme, uma bandeira de Portugal, nuvens, Sol, meninos, meninas, gaivotas, peixes, tudo, tudo, tudo, um espetáculo de luz, cor e muita animação.
O Jr.? O Jr. escreve o seu nome com letra "à mão" como a avó lhe ensinara nas férias lá num cantinho, lá da metade dele da cartolina. Depois "desenha" (gatafunha?) um campo de futebol, duas balizas, dois jogadores e uma bola. Num espaço equivalente ao de um cartão MB. É nesta altura que olha em redor. É nesta altura que vem ter connosco, de olhos rasos de lágrimas. Que o desenho dele estava feio. Que era o mais feio de todos. Que queria fazer tudo de novo. Que era o pior. E nada, nada que me surpreendesse.
Lá fui com ele... Comecei por lhe dizer que não tinha motivo para se sentir assim, que o desenho dele estava muito lindo. Mas depois ele disse-me para eu parar de mentir. E eu parei.
- "Então, pronto, diz-me lá... O que queres desenhar?"
- "Uma cidade!"
Uma ci-da-de!!! Pois muito bem... Não, o meu filho, artista nato e com um desenvoltura notável no que ao desenho livre concerne, não queria desenhar um carro. Ou uma casa. Ou meninos ao lado uns dos outros. Ou um jardim com muitas árvores. Não. o meu filho, e o seu lendário jeito para o desenho, queria desenhar uma cidade:
- "Um prédio?"
- "Não. Uma cidade completa! Muitos prédios, carros, pessoas, um jardim e um aeroporto..."
Respirei fundo e sugeri-lhe que desenhasse "um arranha céus muuuuito alto"... Para ocupar grande parte da cartolina, claro. Depois o pai desenhou uma árvore e um avião. Quer dizer, esboçou, que desenhar desenhar, assim mesmo mesmo desenhar (que é como quem diz passar por cima) foi o Jr., que é só ele empenhar-se e faz desenhos mui lindos. Não. Mentira. Não faz. Não dá. Isso é o que eu lhe digo, para o estimular, para lhe alimentar a auto-estima e isso. Depois de muito esforço, jogo de cintura e "Yes you can", qual "Uma Aventura com Gustavo Santos", lá terminámos a nossa hercúlea tarefa! Agora "só" faltava pintar! E lá estava o Jr. a cumprir tal tarefa, como que a cumprir pena, com a mão esquerda a segurar a cabeça e com cara de "Porquê??!!! Mas porquêeee????"
Para o animar:
- "Estás a ver o relógio, filho? Já só faltam quinze minutos para o intervalo... Depois já podes ir brincar com os teus amigos"
- "Lá para fora?"
- "Sim, lá para fora, para o recreio. Mais um bocadinho e já podes brincar à tua vontade!"
Lá continuou, mais animadinho... Quer dizer... Tão animado quanto possível, assumindo que estava em modo desenho.
Nisto começa a chover... Copiosamente! Prevejo o que aí vem e adianto-me:
- "Olha filho, se calhar já não vai dar para irem para o recreio..."
- "Não?! Então vamos fazer o quê?"
Nem de propósito diz a professora:
- "Bom... Está a chover... Quando chove não dá para irmos para o recreio... Ficamos por aqui pela sala... Descontraidamente.... A desenhar ou assim..."
Eu já nem ouvi mais nada... Olho para o Jr. que revira os olhos e me olha como que a pedir socorro! Olhos rasos de lágrimas. Outra vez.
E é neste estado de aflição que tenho de o deixar.
E num cinismo digno de registo, com a maior descontração e de sorriso nos lábios: "Um beijo e um queijo, meu amor. Vai ser muito fixe, vais ver! Até logo. Vai ser muito fixe! Que sorte... Tantos amigos novos... Tchau-Tchau! Diverte-te! Fixe, hã!... Vai ser muito fixe!!!"
Saio com o coração num punho. Conto cada minuto até o ir buscar. Antevejo mil e um cenários... Uns, a grande maioria, com olhos inchados e lágrimas, outros com sorrisos e muita alegria, mas todos com muito drama e emoção. "Bom, está quase na hora... Quer dizer, às tantas ainda é cedo." Era cedo. Ponho-me a caminho de qualquer das formas. Passo os portões. Toca. E de repente...
Lá estava ele diante de mim. Triste? Não. Abatido? Não. Radiante? Também não. Então? Super-tranquilo! Com um ar de... Oh well, another day in the office. Eu confusa... "Mas, mas... Eu tinha-te deixado tão... coiso!", mas rapidamente... "É que não quero nem saber... Tens fome?" E fomos lanchar. Bolos! E depois fomos buscar o irmão. E depois foi o treino de futebol. E depois banho. E depois jantar. E depois vinte minutos de televisão, lavar os dentes, xixi e cama.
No dia seguinte mais do mesmo. Tudo igualmente tranquilo.
Amanhã é outro, o terceiro, dia e eu não me importava nada que isto encarreirasse assim.
*O meu filho não chora fora de casa. Fica com os olhos marejados de lágrimas, mas limpa-os com as mãos e controla-se. Levanta a cabeça, respira fundo e segue como se nada fosse. Geralmente só eu e o pai é que nos apercebemos do pânico momentâneo. Ainda hoje se esbardalhou de uma torre de escalada. Magoou-se na cara. Muito. Vinha muito aflito, que "se houvesse uma casa de banho para molhar a cara é que era mesmo fixe." Vinha todo vermelho e com as mãos a tapar a boca. Mas não chorou. Lágrimas a escorrer pela cara e gritos? Nop! Não consta do cardápio fora de portas, não.


