quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Dos comandos.

Bem sei que o tema já lá vai, mas não tive tempo enquanto foi temática de parangonas e, como quase tudo que interessa de resto, já ia deixar passar sem escrever nada sobre o assunto.

Mas hoje tive notícias de um primo meu e a verdade é que o que aconteceu, só pode surpreender quem nunca conviveu com um comando.

Eu tenho um primo que foi comando. Esse meu primo foi treinado qual máquina de guerra. Esse meu primo desenvolveu competências de sobrevivência extraordinárias. Esse meu primo foi, em tempos, um Rambo. Um verdadeiro Rambo. Capaz de sobreviver no mato só com a roupa que trazia no corpo. O tempo que fosse preciso. Capaz de caçar com as próprias mãos. Capaz de aguentar todo o tipo de tortura que da boca dele é que não sairia nada. Nem que o matassem. Literalmente.

Mas, como praticamente todos, o meu primo levou um valente pontapé no traseiro quando perfez trinta e cinco anos (ou coisa que o valha). Findo o contrato com o exército: "Xau Rambo nº 7896, foi fixe!" E regressou à sociedade civil um Rambo, tropa de elite, cujas competências que desenvolveu lhe serviram para zero, sendo que foi igualmente do zero que teve de (re-)desenvolver as competências sociais (entretanto afogadas num qualquer treino onde esteve com lodo pela cintura durante dez horas numa noite de janeiro) para se (re)integrar e conseguir singrar na sociedade civil.

Este meu primo tem problemas de saúde vários. Claro. Fígado desfeito, já transplantado, sendo que nunca teve hábitos que o justificasse (como o de consumo de álcool, por exemplo). Sofre de uma doença de sangue cuja causa não se consegue diagnosticar. Claro que o ter sido sujeito durante mais de uma década a "treino de elite", pode ser só uma coincidência. Ou não.

Hoje soube que o meu primo volta a não estar bem. Voltam a não conseguir identificar-lhe o problema.

Hoje lembrei-me de ter lido isto, de não me ter surpreendido mas de me ter agoniado.

Hoje lembrei-me que perante a notícia de dois homens terem sido mortos num treino (que foi isso que aconteceu... eles não morreram, eles foram mortos!) alguém com responsabilidades do exército disse ipsis verbis: "As pessoas têm que ter noção que não estamos a treinar escoteiros!". Oi?! Aquelas pessoas morreram à sede... À sede! Não bateram com a cabeça num acidente... Não. Foi-lhes negada água! Á-gu-a! 

Se alguém foi responsabilizado? Não. Claro que não. Não foi, nem há de ser. Deus nos livre e guarde de nos metermos com as força armadas. Devemos-lhe a democracia, pelo criador!

E este treino tão duro e exigente para quê?! 

Se entrarmos em conflito armado estamos dependentes dos ingleses... Ai não, espera... Esses brexitaram-se! Estamos dependentes dos... franceses, não é? Quando somos nós que vamos ajudar mandamos, normalmente, em missão sfot a GNR, não é? É que mandando gente para a frente de batalha corremos o risco que nos morram alguns... E nós já somos poucos, que morram os dos outros. Mais vale tê-los por cá... A morrer à sede ou assim.

13 comentários:

  1. Realmente essa coisa de se ser tropa 6 anos e depois adeusinho, faz-me um bocado confusão.

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    1. Os que têm este tipo de treino, então...

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  2. De acordo, mas acho que como tropa especial tem de ir até a um certo limite nunca o descrito no link, não é preciso morrer ninguém para se perceber o bom soldado, lesões, fadiga, agora morte no treino é demais.

    O meu pai foi da 11ª Companhia de Comandos em Angola 69-73 e passou por situações reais da "frente" surreais, só uma vez falou e foi algo que mexe...

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    1. De acordo.
      (Fui irónica ali numas partes do texto...)

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  3. Pipocante Irrelevante Delirante24 de novembro de 2016 11:49

    Se calhar eles passam 10 horas enfiados em lama até ao pescoço porque num cenário real podem vir a passar 10 horas na lama até ao pescoço. E aí não há interrupções para descanso.
    Percebo o exagero, e a indignação, o processo de treino deveria ser mais científico e controlado, e menos deixado à vontade dos humores de um instrutor, mas as condiçoes terão necessariamente de ser extremas.

    Percebe-se no entanto que, politicamente, haja quem esteja a usar este exemplo para questionar o papel dos Comandos, e terminar com esse ramo (não é o caso aqui da escriba). É sempre simpático quando se usa a dor alheia com propósitos políticos.

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    1. Claro. Mas não se pode nunca chegar ao extremo de os matar. Se não aguenta dez horas não aguenta. Ou treina até conseguir ou vai para casa.

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    1. Não concordo... Há é imenso espaço entre treinar escuteiros e matar pessoas em treino... Têm de se rever métodos e, essencialmente, a formação dos formadores. É por ali, pelo que o PID disse... (O curso esteve interrompido de 1993 a 2002, creio. Até 1993 tinham morrido 9 comandos em treino. Aparentemente não se mudou nada. É inadmissível.)

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