sexta-feira, 20 de outubro de 2017

... E ainda não lhes tinha ardido o quintal...

Dia 11 o Instituto de Ciência e Inovação para a Bio-diversidade, em Braga, inaugurava edifício e oferecia árvores autóctones aos presentes, "pensando em reflorestar Portugal".

Sim, tenho um carvalho cerquinho a ganhar corpo no parapeito da janela da minha sala. Mal cumpra requisitos mínimos vai morar para uma aldeia de Trás os Montes e vai ser um carvalho muito feliz.

Quatro dias depois, Braga estava assim:

O INFERNO EM BRAGA NO PIOR DIA DE FOGOS DO ANO



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

E de repente mudei de opinião. Para a vida. CM TV ÉS MAIOR!!!!!!!!

Eu, que já por diversas vezes vos apelidei de abutres, a vós e a outros como vós, venho por este meio não só pedir desculpa como atestar que sois um modelo a seguir para qualquer meio de comunicação social...

Filmai. Filmai tudo. Filmai as pessoas em desespero, filmai os funerais, filmai os gritos excruciantes de velhinhos desgarrados. E de crianças. E de adultos. Filmai os animais queimados. Filmai os desmaios. Filmai crianças a chorar os pais. Filmai adultos a chorar os filhos. Filmai os gritos. Filmai as casas destruídas. Filmai os tratores carbonizados. Filmai os cadaveres a serem arrancados e despojados da napa derretida dos assentos dos carros ardidos. Filmai os familiares que vão ao INML reconhecer qualquer cordão de pescoço que foi retirado a um cadaver completamente irreconhecivel. Falai com os familiares dos mortos, se possível falai com os próprios futuros mortos, preferencialmente no momento exacto de pré falência onde eles perguntam pelos filhos. Depois ide dar a notícia aos tais filhos e filmai. Filmai os cadáveres. Filmais crianças carbonizadas. Filmai. Filmai os gritos. Filmai. Filmai tudo. Mostrai isso em loop, a toda e qualquer hora. Sem aviso prévio. Filmai e mostrai. Tudo.


Talvez, isso contribua para as pessoas não amaciarem o que aconteceu e se focarem no que realmente tem valor nesta vida –  a própria vida. A de todos e de cada um. Sem excepção. 

É indesmentível que, para cada um nós, a nossa vida vale mais que a dos outros.

Mas é igualmente indesmentível que para os outros... Enfim, para os outros, os outros somos nós.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Tenho amigos em todo Mundo...

Amigos estrangeiros. E todo o Mundo sabe dos acontecimentos de domingo.

O meu telemóvel não pára com as notificações. Já vou no segundo ciclo de bateria.

A primeira pergunta é se estamos bem, se me afectou diretamente a mim ou à minha família de alguma forma.

Não, não afectou.

A segunda pergunta é o que vai acontecer a seguir.

Aqui, conversa a mais conversa a menos, percebo que, curiosamente, algumas pessoas não sabem o que aconteceu em junho...

Aí, conversa a mais conversa a menos, fico com vergonha de dizer que, a menos da ministra que ainda o era desde junho, acho que vai ficar tudo igual.

Moral da história.

De março a junho estivemos sem Proteção Civil porque foi toda uma equipa nova que foi constituída e isto, já se sabe, demora até se definir estratégias, ajustar sinergias, acertar agulhas e, finalmente, entrar-se em velocidade de cruzeiro.

Em junho aconteceu o que aconteceu e a Ministra, diz agora, quis demitir-se.

O Patrão não deixou, a Ministra acatou e foi lá para o canto dela lamuriar-se, de braços caídos e  emocionalmente esgotada.

E a Proteção Civil lá continuou, ainda que por outros motivos que não os primeiros, um navio à deriva.

Resumindo, há, pelo menos, mais de meio ano que estamos sem proteção, entregues aos desígnios divinos.

Mais de cem almas foram-se... Algumas porque confiaram e acharam que se as estradas não estavam cortadas (e se, nalguns casos, para ela foram desviadas por forças de segurança) é porque, enfim, estavam transitáveis; algumas porque não confiaram (e até, seguindo o conselho do secretário de Estado) e fizeram-se ao fogo para salvar o que tinham.... 

Mas, pronto, a malta compreende...

(Afinal somos todos humanos, quem nunca errou que atire a primeira pedra, e diz que na Australia e na California aquilo também anda a arder e já morreram quase tantos como cá...)

(E o que eu acho é que os portugueses andam a pagar poucos impostos... Só isso justifica serem sempre tão complacentes com o que se lhe faz ao seu dinheiro....)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Cada um divulga como pode.

São concentrações em Lisboa, Porto, Braga e Leiria contra os incêndios, sob o mote "Vão de férias" ou "Protestar para Mudar". Organizadas através das redes sociais, serão entre esta terça e sábado.

Aqui.

Porque há quem perceba do assunto e, não obstante, escreva em blogs.

A INCOMPETÊNCIA E A DESERTIFICAÇÃO DO PAÍS

DE RERUM NATURA
[Sobre a Natureza das Coisas]


Posso testemunhar o primeiro parágrafo:


Não sei precisar o ano, mas diria que foi entre 1989 e 1991, e perante a possibilidade de se vir a reflorestar a Serra do Marão com eucalipto depois de um incêndio, houve gente que se manifestou como pôde e soube.

Era eu uma criança de Bragança, esse reduto de selvagens iletrados e indoutos, e o carro dos meu pais (como tantos outros na cidade) ostentava um autocolante no vidro traseiro com os dizeres "Natureza Sim, Eucalipto Não". E era o que diziam os jornais regionais. "Natureza Sim, Eucalipto Não".  O que corria é que onde havia eucaliptos não havia mais nada, que sugavam toda a água e mais nada em sua volta conseguia sobreviver. E que explodiam. Que eram árvores que, simplesmente, "explodiam". (E explodem! Chegam a mandar material incandescente a 20 km (vinte quilómetros!) de distância.) E que não morriam nos incêndios. (E dificilmente morrem, meses depois de arderem já têm novos rebentos e depois de um incêndio, então, é que mais nenhuma espécie se consegue desenvolver.)

Bragança, inícios dos 90.

Ninguém ligou. Porque, afinal, o eucalipto era o "ouro verde" e porque toda a gente sabe que os académicos são uns teóricos, aleados da realidade e das necessidades reais das populações, a quem não vale a pena ligar muito.

Estranhamente, na altura, tal como agora, mais nenhum país parecia ver a riqueza fácil que ali estava... Ali mesmo, à mão de semear. Enfim. Cambada de burros. 

Aos que berram que isto, enfim, foi um triste infortúnio. Que ninguém tem culpa. Que nada podia ter sido feito. Que afinal são as alterações climáticas (que resolveram iniciar funções em Portugal a 14 de junho de 2017, precisamente, diz que Portugal está na moda, deve ter sido por isso), que nada podia ter sido feito e que, enfim, são azares da vida, recomendo a leitura do relatório da comissão independente relativamente aos incêndios de junho (versão completa, aqui).

Ao nosso caríssimo Primeiro Ministro,
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"habituem-se" mazé o caralho.