segunda-feira, 19 de junho de 2017

No blogue como na vida.

Custa-me verbalizar o que me aflige. O que me consome. O que me atormenta e me rouba noites de sono. E se me custa pôr em palavras o que me dói, aterroriza-me a ideia de o fazer despropositadamente. em local ou forma imprópria. Por pudor. Por respeito.

Cada vez mais este blogue é uma versão light de mim. Só tenho vontade de escrever o que me é ligeiro. As minhas graçolas, as graçolas dos meus filhos. A graçola ligeira em que amiúde transformo a minha vida para que não se me esmoreça o sorriso. E por consequência, qual circuito de dominó, os sorrisos dos que existem comigo. Lá vamos indo. A rir e a cantar, muitas vezes por entre os pingos da chuva.

Não me lembro de ter aqui escrito pesarosas palavras sobre qualquer atentado, acidente, ou catástrofe de massas. Porquê?! Como já disse, por respeito. Por pudor. Porque no post imediatamente abaixo deste tenho uma graça do meu filho. Porque não saberia que post escrever a seguir. Como se este blogue, versão ligeira de mim, não fosse digno de assuntos sérios. Porque seria desenquadrado.

Sou muito sensível.
Foram noites seguidas com pesadelos com o prédio de Londres. Um inferno, noite após noite. Acordei sobressaltada. Também eu queimada. Gritos, filhos lançados pela janela, gente fechada numa incineradora gigante... Interruptor ininterruptamente no On. O cérebro sempre ligado. Sempre lá, sempre no fogo. Ai... E as pessoas que reclamavam o número de mortos? Que eram mais, muito mais... E eu a querer irromper ecrã adentro e dizer-lhes que não, que aquele não era o número de mortos, era o número de cadáveres. Dizer-lhes que outros mortos tinham, na verdade, sido cremados. Estavam ali sim, mas desfeitos em cinzas algures naquele monstro de betão. Almas expostas a 900ºC. Inencontráveis, portanto.

Este Sábado foi um dia bom para nós. Muito bom, Fomos passar o fim de semana fora. Almoço com família alargada, sesta com o filho mais novo, dia de praia perto de perfeito. As crianças felizes. Areia e cabelos molhados. Histórias de dezenas de caranguejos, à sombra a descansar. Duches quentes que a praia foi longa e jantar ligeiro. Saí para caminhar à beira mar. Até me doerem as pernas. Eu comigo. Feliz. Na ignorância. Regressei e deitei-me a ler. Internet algures, perdida com o telemóvel, talvez no saco da praia. Adormeci cedo e cedo acordei. E vivi tudo outra vez. Aquele inferno. Aquelas labaredas. O calor. O calor que me calou. Outra vez. De site em site. Calada. Sozinha. A remoer.

E depois estrebucho. E depois grito.

Porque somos o País que deposita as fichas todas na Nossa Senhora de Fátima.
Porque somos o país que não tem um plano de emergência nacional. 
Porque somos o país que não sabe o que há de fazer quando a catástrofe chega. 

E porque há de a catástrofe chegar? 
Pois se temos o Ronaldo e o Salvador Sobral, que sentido é que isso faz? Quem poderia prever?

Porque isto não foi a queda de um autocarro ao Rio (catástrofe fechada, semelhante à queda de um avião, sabe-se exactamente quem procurar).
Porque isto não foi uma enxurrada fruto de chuva e mais chuva. Muita chuva, mas durante um espaço relativamente curto de tempo.
Não. Isto foi uma catástrofe aberta (quem?! quem procuramos?) prolongada no tempo (como?! como paramos isto?). Isto é difícil. Pois é. É difícil aqui e em qualquer parte do mundo. Mas isto não foi inesperado. Não foi um tsunami. Foi um incêndio numa zona vulnerável num dia muito quente.

Não há qualquer plano de acção para isto no nosso país. Não existe. Nem para catástrofes fechadas, nem para catástrofes abertas. Catástrofe grandes, pequenas, ou assim-assim. Em qualquer caso é, basicamente, o salve-se quem puder. Morra 1, morram 10, morram 100, morram 1000. Caia água do céu, abra-se a porta do inferno, trema a terra, caia um avião. Não há nada. Que Nossa Senhora nos proteja.

Lembrais-vos de quando se evadiram prisioneiros de Caxias ainda este ano? O que se fez?! Ligou-se o 112 e, posteriormente, deu-se o alerta por email. Por email! E isto é o que acontece. Quer seja num incidente ou numa catástrofe. Vai-se indo e vai-se vendo. E depois logo se vê e faz-se o que se pode. E depois ninguém se entende. E depois anda tudo numa roda vida a correr em frente, quase sempre afinal em círculos, sem saber para onde se vai. Quais galinhas sem cabeça. E ninguém acode. E ninguém sabe. Ninguém sabe que instituições fazem o quê, onde começam os deveres de uns e os de outros. Tudo ao molho e fé em Deus. A "articulação" entre a instituição X e a Y não é mais que uma negociata ali decidida, a quente (literalmente), e em quaisquer cinco minutos. Num desperdício absurdo dos poucos recursos que temos, Não há articulação. Não há organização. Não há prevenção. Não há nada. Nada de nada. Há fé. 

E isto não pode ter apanhado ninguém de surpresa.... Avisos e mais avisos. temperaturas incendiárias previstas. Anunciadas. Embandeiradas. Uma zona desordenada, não tratada, de pinhal e eucalipto que arde invariavelmente todos os anos. E que este ano... Num fim de semana tórrido... Olha... Foda-se... Ardeu!! E esta, hein?! É que foi mesmo imprevisível, bolas!

Mortos. Dezenas e dezenas de mortos. Gente deixada à sua sorte... Gente num inferno. 

E a culpa?! A culpa ainda há de ser da falta de formação... De voluntários!!! Voluntários a quem se exige que entrem no inferno. Porque... Porque sim, então?! Gente a quem se dá uma palmadinha nas costas, qual ossinho que se atira para debaixo da mesa ao canito.

A culpa?! A culpa há de ser do calor. E do vento. E da trovoada.

Nunca das pessoas com capacidade de decisão. Isso não. Porque o São Marcelo disse logo na noite de Sábado que se fez tudo, tudo, tudinho, o que se pôde. E logo no dia a seguir a PJ encontrou a precisa árvore onde tudo começou. Raios partam lá isto, que azar o nosso. 

Pronto, já estrebuchei. Já me calo que a partir daqui só pode sair disparate.
Talvez vá vomitar antes.

22 comentários:

  1. ainda bem que escreveste.

    um abraço,

    flor

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    1. Estou lavada em lágrimas.
      Que inferno, flor. Que inferno...

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    2. minha querida NM.

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  2. Também fiquei boquiaberta quando o PR disse que se fez tudo o que era possível. Que coisa horrível de dizer quando todos sabemos que a prevenção é inexistente, os meios não são os necessários - não era possível haver mais meios e em melhores condições? Criar condições para atrair mais bombeiros? Aquelas pessoas entrevistadas, que se disseram encontrar isoladas em aldeias cercadas de chamas, que pediram ajudam e nunca apareceu ninguém, é mesmo isto o 'nosso possível tudo'? Muita vergonha.

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    1. O nosso PR fala demais...

      Ter viaturas em pontos críticos de prevenção, com bombeiros de piquete devidamente remunerados? Ou só porque não é verão no calendário, tal deixa de ser opção? Pedir ajuda militar quando é ainda é tempo e não só quando já está tudo descontrolado?

      O ano passado só 10% do orçamento foi gasto em prevenção de incêndios. O restante, quase totalidade, no combate. Assim não dá...

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  3. Ó NM... vamos embebedarmo-nos e acabar a noite a contar caranguejos?

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    1. Ó Outro Ente...
      Que plano tão bonito...

      (Podíamos ser tão mais capazes, não podíamos?)

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    2. Não, não penso que pudesse.

      "Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.
      Mas com quê? Com vinho, com poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.
      E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: " São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto."
      Charles Baudelaire

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  4. Gostei tanto deste teu texto. (Infelizmente, tiveste que o escrever.) Nem vou cair na veleidade de dizer que o poderia ter escrito. Porque não podia. Linha a linha.
    (A culpa? Essa morre sempre solteira no nosso país. Provavelmente, seremos também o único que usa essa expressão. Já os mortos, coitados, morreram todos casados com a desgraça.)
    Beijinho muito grande

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    1. Os mortos e os que que cá ficam a pensar o que fizeram e o que podiam ter feito... Esses casam-se com a culpa.
      Beijinhos Linda.

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  5. Também não consigo escrever, a minha vida está uma bela merda (desculpa mas não consigo dizer doutra forma) mas olho aqui mesmo ao lado e não consigo imaginar o terror dos que se foram, dos que ficaram. Ao pé disto não somos nada.

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    1. Pois não, Be. Ao pé disto somos umas sortudas. Mesmo com a vida de pantanas...

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  6. Há coisas que até custa só de imaginar. Prefiro nem pensar... demasiado doloroso.

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  7. :(
    De coração apertado...
    Arre porra. O pior é que acho que nem esta tragédia vai servir para acabar com eucaliptos e afins. Que nem esta desgraça vai fazer com que se invista a sério na floresta, começar a tratar dela no inverno, continuar na primavera e verão! em vez de comprar aviões e helicópteros que enchem o olho!
    Arre porra para este cocó gigante.
    de coração apertado e a não querer acreditar que isso aconteceu!
    e o que me assusta é que nem chegou o verão a sério, a terra vai ficar mais seca, as ervas mais castanhas...
    Arre porra! :(

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    1. Não. Não pode acontecer. Algo tem de mudar. Pode não resultar, mas algo terá de mudar.

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  8. ;( as culpas ... as culpas vão sempre para quem dá o que tem e não tem ... as culpas vão sempre para os bombeiros que arriscam tudo, passam semanas em combate, desidratam, não descansam... acabam o verão com a pele queimada, esgotados e traumatizados. Mas eles não merecem descansar! não! eles gastaram as suas férias a combater o maldito fogo que alguém não soube prever! eles arriscaram a vida e puseram a vida dos seus familiares em suspenso porque é difícil perceber de onde brota tanto amor pelo próximo... e eles, os que dão tudo, têm de suportar todas as bocas, todos os queixumes. É muito duro para quem tem familiares bombeiros ... gastam o seu tempo, a sua saúde, muitas vezes a sua vida. Porra para isto!

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    1. Isso não. Dificilmente os homens no terreno terão culpa. Os que efectivamente lá estão a dar o corpo às balas. Até porque esse vão para onde os mandam... Esses não podem ter culpa. Sabem lá eles se são precisos noutro lado... Esses ninguém pode culpar.

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  9. Tinha eu 6 anos quando tive queimaduras de 3º grau em 25% do corpo, numa época em que não havia coma induzido para queimados.
    Vivi o pesadelo de 4 meses de tratamentos diários, de uma dor tão intensa que chorava dias inteiros. 1 ano de pele a crescer, a ser raspada para não ficar engelhada, para esperar que o músculo crescesse sob ela. E o meu corpinho de 20kg foi dilacerado e rasgado durante meses, e apesar de tudo valeu a pena porque as cicatrizes são mínimas para o que podia ter sido.
    Na última semana, revivi as dores, o terror, a impotência. Choro só de imaginar o que os quase 140 mortos devem ter sentido nos seus últimos instantes de existência. Londres e Pedrógão tornaram-me novamente numa queimada. Esta foi uma das piores semanas da minha vida-

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