quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Também da Paülla Britto y Kosta.

Quando o escândalo veio a público, comentei o assunto com a minha gente, tal como, provavelmente, três quartos do país.
Dois ou três dias depois comento como é possível a senhora ainda estar em funções e o meu marido diz-me que só tinha de aguentar mais um mês, que depois a malta se esquecia e tudo passava por entre os pingos da chuva que teima em não aparecer. "Ainda por cima se metem as festas... Esquece... Não a tiram de lá.", dizia ele.
Eu não podia crer.

Depois vi a entrevista ao Sexta às Nove.

"Não é por umas gambas e dois vestidos que vou fugir" e parece que a da delegação do Norte também fez asneira... O tão em voga: "Ah... Ok, eu fiz isto e aquilo, por desconhecimento e de boa fé e tal, mas e então a outra que fez aqueloutro gravíssimo?!"

E dei razão ao meu marido. Não vai ser fácil.

E aquela entrevista... Bom, a senhora até pode escrever um livro de como foram só umas gambas e dois vestidos, de como transformou aquela casa, de como aquela casa lhe deve tudo. Dá-se é o caso de aquela casa não ser sua. Não é. As instituições não são quintas. Os caseiros amiúde esquecem-no. Mas não são.

Qualquer pessoa reconhece a imoralidade de uma IPSS ostentar um automóvel daqueles. É imoral. Fosse para transportar a Rainha, o Papa, ou o próprio do Jesus Cristo. É, simplesmente, imoral.

Mas talvez só quem conhece o funcionamento das IPSS (um aparte para dizer, com orgulho, que fui durante anos presidente do Conselho Fiscal de uma) se apercebe da imoralidade do que foi feito naquela casa. A imoralidade de se ter feito um contrato de trabalho naqueles termos (a criar um cargo de "direção-geral", paralelo ao de direção da IPSS), com aquele salário, com aquelas regalias, numa instituição de solidariedade social, com execuções orçamentais anuais (muito) negativas. O presidente de uma IPSS poderá, se assim se justificar, ser remunerado com um máximo de 4xIAS, o que equivalerá a, grosso modo, 1200€ limpos ao fim de um mês, x12 ao fim de um ano (não x14 como num contrato de trabalho), com limitação de três mandatos (12 anos) consecutivos.

Há uns dias dizia o presidente da CNIS  numa entrevista à Antena 1 que acreditava que apenas 5% dos presidentes das direções das IPSS fossem remunerados. (Estatísticas efetivas sobre o assunto? "Bola!", lá diria o treinador do meu clube.) Mas esse número parece-me ridiculamente pequeno e o que eu questiono é quantos exercerão cargos paralelos nessas tais instituições com contratos de trabalho como a phyna da Paula, sem qualquer regulamentação específica.


Parece que hoje a senhora foi suspensa por trinta dias.
Mas eu continuo a achar o mesmo... Não estou certa que seja destituída.
É só aguentar agora dois meses, sem grande alarido (ou "alarme social", como se diz).

Mas tranquilizemo-nos e continuemos a confiar... A maior parte das IPSS, as pequeninas, não têm dinheiro para mandar tocar um cego, como se costuma dizer. A não ser que seja a ACAPO, que às tantas aí terão contactos para ter música de borla.  É chapa ganha, chapa gasta e omelete sem ovos é o prato do dia, sendo a consignação de IRS uma das mais relevantes fontes de rendimento. Por falar nisso...  Há mais ou menos 3000 entidades que podem beneficiar dessa ajuda. Ide ao site das finanças procurar a lista, procurai uma que vos toque o coração (de caminho podeis dar uma volta a ver o que se faz na vossa freguesia, bater à porta e perguntar se podeis ajudar em alguma coisa), e depois tende o cuidado de preencher o Quadro 11 do vosso formulário de IRS. Não dói nada.

17 comentários:

  1. Porque a minha filosofia passa muito pelo "rir para não chorar" (e também para provar que não sou um polícia do politicamente correcto, que isto aqui pela blogosfera às vezes não fica claro), vou só dizer que me ri muito mais do que devia daquela parte riscada... :P

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    1. Ahahahahahahahahahah Boa! Quem diria... ;)

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  2. Não estava em Portugal quando a TVI passou a reportagem, acompanhei o fenómeno à distância, e confesso que o que me "chocou", foi alguém achar que 200€ compram um vestido de alta costura. Digo eu, há mais 10 anos ligada aos corpos dirigentes de uma IPSS, 6 deles como vice-presidente. Não Paulinha, não são nem as gambas nem o vestido...
    Já cá estava no dia do Sexta às nove, mas depois lembrei-me da Sandra Felgueira, e no seu Sexta às Nove, esse monumento informativo que nos deu a conhecer o Beato, tenho para mim que a canonização está por dias, Pedro Dias e a intenção de se entregar às autoridades para esclarecer a cabala de que também ele estava a ser vítima. De maneira que, tendo pouca paciência para estórias da carochinha, achei por bem mudar de canal...

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    1. A reportagem da TVI (deves conseguir vê-la online) choca, mas, enfim, é o que é. A do Sexta às Nove é que me deixou estarrecida e com medo. Que tipo de gente é esta?! Onde arranjam aquelas cara de pau? De repente parece tudo normal... De repente está a dizer que o país lhe deve um pedido de desculpa... Na política é que ela se havia de dar bem...

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    2. Se a Felgueirinhas se prestou ao serviço de puxar lustro à imagem dos Pedro Dias, em nome do enorme furo jornalístico que é fazer a entrega em direto de um homem procurado pela justiça, ao estilo dos "melhores" serviços noticiosos do Brasil (ele há afinidades a que não se pode fugir, né?) ia lá perder oportunidade de entrevistar a queridíssima PBC?
      Reconheço mérito de uma causa e da própria Presidente (ninguém diz que a senhora não deu couro e cabelo para a Raríssimas ser o que é), mas é evidente que do ponto de vista da moralidade, nos aferimos por diferentes gabaritos.

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    3. Essa do Pedro Dias... Como é que alguém vai ter com um foragido e não avisa a polícia? Suponho que o que fez tenha sido legal... Mas na minha ignorância também não percebo como tal sera possível.

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    4. Então ela já tem a experiência da mãe dela!!!!

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  3. Como tenho um sentido de humor algo negro, gostei da parte riscada.
    Por causa de Rarissimas e outras semelhantes é que muitas vezes penso duas vezes antes de dar para IPSS. Bem sei que paga o justo pelo pecador mas com a minha provecta idade já conheci outros casos, talvez não tão graves nas onde o bem social não era a principal prioridade.

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    1. As IPSS mais pequenas não desviam fundos porque não os têm. :D E muitas prestam um serviço grandioso (ainda que silencioso) à sociedade. Mal estaria o cuidado social, por exemplo, se não fossem as IPSS...

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    2. Tens razão. Contudo, conheço uma IPSS, pequenina, gerida por pessoas ditas caridosas, que recebia bens do banco Alimentar e que os distribuía pelos amigos e conhecidos e não por aqueles que mais necessitavam.
      Mas, quando começo a tornar-me muito má e cínica lembro-me do que dizia a minha avó: "é preferível dar uma esmola a quem não precisa do que recusá-la a quem precisa."

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  4. Pipocante Irrelevante Delirante21 de dezembro de 2017 10:27

    Desse texto realço "E dei razão ao meu marido.". É a conclusão mais relevante.
    Tudo o resto são banalidades recorrentes, pois estamos em Portugal e ninguém leva mal. O Isaltino ajuda a explicar, se tiver tempo por entre os seus afazeres.

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    1. Foi a minha prenda de Natal para ele.

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  5. Faço parte da direcção de uma IPSS, e nem eu, nem nenhum dos meus colegas de direcção recebemos qualquer tipo de remuneração, nem queremos, porque o dinheiro é tão pouco que mal dá para pagar aos funcionários/renda/água/luz/impostos/actividades para os miúdos, quanto mais ordenados chorudos. Para mim pertencer à direcção de uma IPSS deve ser algo encarado como trabalho voluntário, nunca deverá ser remunerado. Se o presidente passa muito tempo na associação, das duas uma, ou não tem nada para fazer e pode despender do seu tempo a fazer o bem, ou então tem que contratar um gestor profissional porque claramente há necessidade disso. E tal como os presidentes de camara/junta têm "prazo de validade" também as direcções das IPSSs deviam ter...
    O que mais me chateia neste caso é que as pessoas estão a perder a confiança nestas associações. E há tantas que precisam de ajuda...

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    1. Só concordo em parte. Há casos e casos, e há situações de IPSS que funcionam claramente mal porque não têm ninguém dos orgãos sociais presente no dia a dia da instituição. Por outros carnavais estou a tentar trabalhar com uma e tem sido o cabo dos trabalhos porque todos os membros são voluntários, quer os das delegações regionais quer o da nacional. Moral da história: a presidente acumula dois trabalhos mais o cargo voluntário na direção. Tudo naquela casa depende deles (dos voluntários)... Tudo, tudo é o cabo dos trabalhos. Em IPSS com alguma representatividade não é possível assim...

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    2. E o que a da Raríssimas fez foi o que dizes... Havia necessidade de um gestor e ela contratou um - ela própria. Ela era voluntária no cargo de direcção da IPSS.

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  6. País do facilitismo e da falcatrua

    https://publicacoes.mj.pt/

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