segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Do stalking, dos cartões e de uma carrada de marcas

 Na sequência deste artigo:

As marcas fazem stalking às mães - Life&Style

Eu não faço todas as compras em grandes superfícies. Esforço-me por manter vivo o comércio tradicional e contribuo na medida em que posso. Compro a fruta, o pão, a carne e o peixe, na frutaria, padaria, talho e peixaria da minha rua. Tratam-me pelo nome, garantem-me a frescura e a qualidade, deixo a lista e passo a buscar mais tarde. Nem que pague uns trocos a mais pelos produtos em si, a verdade é que esta segurança e atenção também tem de ter um preço, que eu, de resto, pago com todo o gosto.

Qualquer coisa que precise de repente vou a pé ao supermercado a 5 minutos. Há no entanto muita coisa que deixo para comprar, uma vez por mês ou coisa que o valha, no Continente aonde me desloco de carro e onde dou uso ao tão afamado cartão já por aqui discutido. Falo essencialmente de coisas mais pesadas como drogarias, leite e latas de conserva. Aproveito os tais descontos em cartão e compro em quantidade logo que tenha espaço em casa.

E o Continente sabe isso... Sabe que não sou cliente assídua, mas que cada vez que me dou ao trabalho de ir lá trago uma senhora carrada. Sabe que compro quase sempre as mesmas coisas. Sabe em que produtos não dispenso determinadas marcas, sabe que com os frescos não me convencem - ainda há de chegar o mail a perguntarem-me a razão, sabe que os únicos congelados que compro são os nuggets de frango para um desenrasque nas refeições do miúdo, sabe que não tenho hábito compar por lá roupa, sabe que o meu filho mais novo ainda terá pelo menos mais meio ano de leite em pó (e ano e meio de fraldas) pela frente, sabe que não sou esquisita com os produtos de limpeza - que trago o que estiver em promoção, sabe em que produtos compro marcas brancas, sabe que o meu filho mais velho ainda está em idade pré-escolar e que gosta muito de danoninhos, sabe que o leite é Agros e que fiambre nunca é de porco... 

Sabe que comprei uma Britta e que desde aí não faço compras online, que aquilo era um ror de água de cada vez que lá iam, mas que às tantas... Ou não  mudo os filtros com a frequência que eles recomendam ou ando a mijar fora do penico e a comprar na concorrência... Às tantas ainda desenvolviam um algoritmo e mandavam mails automáticos às pessoas com pequenos lembretes: "Já mudou o desodorizante da sanita? Quer sugestões? Oferecemos-lhe 25% de desconto em cartão... Até pode comprar aqueles das bolinhas que só compra quando estão em promoção..."

O Continente sabe muitas coisas da nossa vida... E, caraças, isso assusta-me porque eu não sei quem é o Continente e sinto-me vigiada e controlada, ah pois sinto.

17 comentários:

  1. É algo que também não me agrada. O chato é que para ganhar uns trocos, nas promoções, abdicamos da nossa privacidade.

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    1. A verdade é que todos temos um preço!

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  2. Por mim, não me importo nada que o continente saiba que aprecio os gelados carte d'or e me mande, regularmente, cupões de 25% para essa marca.

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    1. Pois é... Mas quando um dia fores a sair de casa e estiverem os senhores da olá à tua espera para te pedirem explicações e a perguntarem o que podem fazer para tu alterares o teu comportamento desviante e a acenarem-te com descontos de 50%... Depois nesse dia não venhas cá com falinhas mansas ah e tal oh NM e agora que faço que os gajos não me largam os calcanhares... ;DD

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  3. E o Continente, melhor os seus accionistas principais, sabem nas superfícies comerciais que gerem, que lojas vendem o quê, e vão ao lado e criam outras que vendem exactamente o mesmo, e a pouco e pouco vão empurrando as concorrentes para fora, como Zippy's, e Wortens, e Wells, e... Ah, como é bom ser jogador e árbitro ao mesmo tempo.

    Boa tarde :)

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    1. É que eles têm de tudo, metem o bedelho em tudo... Livros, seguros, viagens, desporto, agora até ocupação de tempos livres nas férias dos miúdos... é a monopolização do mercado: http://www.sonae.pt/pt/marcas/

      Boa tarde xilre! :)

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  4. Tenho sentimentos confusos. Saber da minha vida e hábitos de consumo todos sabem, sabe o continente, que não sabendo o meu nome sabe que tenho o cartão n.º 12345, e sabe o senhor do talho e da frutaria que sabem que gosto mais da carne assim ou da fruta assado (o da frutaria manda sempre uma peça de fruta a mais "para a Mironinho, que eu sei que ela gosta" e o talho diz-me que tem umas costeletas de borrego muito boas "para a sua menina".

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    1. Mas Mirone, para pedires o cartão tens de dar nome, morada, telefone, nº de contribuinte, (habilitações literárias, cor dos olhos e das cuecas...). Não és só um número. és um número para o empregado da caixa, para o grupo não. Para teres o número deste de bandeja todos os teus dados.
      E se o senhor do talho sabe isso.. (que não sabe, digo eu que saiba o teu primeiro nome e morada e pouco mais), talvez a mulher dele também saiba... mas fica-se por aí. numa grande superfície estás a dar a tua vida a saber a grupos macro económicos, às marcas... Perdes-lhe o rasto, não sabes que fim vão ter aquels dados. Isto tem um valor incalculável...

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    2. O que eu queria dizer é que apesar de estarem na posse de mais elementos sou mais anónima para os grandes grupos (porque nem os seus funcionários nem os seus administradores sabem quem sou se me cruzar com eles na rua), do que para o senhor do talho, que só sasbendo o meu primeiro e último nome sabem que vivo naquele andar, que tenho uma filha pequena, que sostumo passar ali todos os fins de tarde, que gosto das carne cortada desta ou daquela maneira, esse senhor conhece-me se me cruzar com ele na rua e até é capaz de comentar, acredito que sem maldade, com a minha vizinha que ainda hoje levei uns bifinhos que eram uma categoria. Se as regras funcionarem posso pedir-lhes que eliminem os meus dados ou proibi-los de usarem as informações que lhes dei de livre vontade (já ao senhor do talho, quer lhas dê quer não ele acaba por as saber) ou de cedê-los a terceiros, seja para fins publicitários sejam para outros.
      É como te digo, tenho "mixed feelings". Se começar a pensar na quantidade de coisas que as pessoas (estranhos e menos estranhos) sabem sobre mim dou em doida (mais).

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    3. Eu percebo bem o que dizes. Eu nasci e cresci numa cidade pequena. Qualquer um era o homem do talho, eu inclusivé. :) A questão é que se o senhor do talho te conhece, tu tb o conheces a ele... Já os senhores do Continente... Eles só não te conhecem se não quiserem, já tu eles... Já mais saberás quem são! (Nota-se muito que reli há pouco o 1984? :) ) E a verdade é que sim, que lhes podes pedir para apagarem os dados, mas ficas sem o cartão... O "contrato" é, de resto, esse! Tu dás-lhe os teus dados e deixas que eles te rastreiem as contas, eles "dão-te" os descontos...

      Dava para fazer deste um processo "cego"... Podiam atribuir cartões sem te pedirem os teus dados... Qual era o problema? O cartão tinha um número... Punham uma maquineta em cada supermercado que imprimisse na hora os vales associados aquele cartão (os correspondentes aqueles que recebemos no correio...) Qual era a dificuldade disto? Nenhuma. Cada pessoa optaria por continuar com o mesmo cartão ou pedir outro, com outro número, sem qualquer associação ao anterior. Ou então davam vales de desconto nas caixas, na altura da compra, para descontares nas seguintes... O que eles querem é uma base de dados competente... Para saber quem compra o quê, para perceberem o historial de cada cliente... Com uns algoritmos espertos dá para modelar os opções de compra de uma região inteira... É uma mais valia tremenda para a gestão da (hiper-)casa...

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  5. Eu prefiro nem pensar nisso porque senão tenho ideia que fico paranoica e me mudo para um bunker

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    1. E as telecomunicações? E as rodovias? E os pagamentos MB?? Huuuuuuuu... tuuuuudo registadinho... ah pois...

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    2. A quanto está o m2 de bunkers mesmo?

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  6. Tu tens é falta de morar onde eu moro, o Tenente mais próximo é a 40km. Podem perseguir à vontade. E quando vierem cá avisem que eu encomendo qualquer coisa que faça falta da loja on-line! ;-)

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    1. Quando for velhota mudo-me para uma aldeia... Ai mudo mudo...

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    2. Epah mas isto não é uma aldeia qualquer!!!!! Já é junta de freguesia!!!! :-D

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    3. Olha... É mesmo isso que eu quero ser quando for velhota... Presidenta da Junta... :DD

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