sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Das impossibilidades teóricas comprovadas na prática

O Sr. Rogério é um homem que Maria muito admira. O Sr. Rogério, entrado nos setentas, cresceu sem eira nem beira, tem uma quarta classe mal feita e, além de ser um honrado homem de família, o Sr. Rogério conseguiu fazer uma pequena fortuna, que em tudo lhe saiu do corpo. O Sr. Rogério foi esperto, trabalhou de sol a sol, não teve medo de arriscar quando tudo lhe podia ter corrido muito mal. Saiu-se bem. Maria tem um tremendo respeito por homens como o Sr. Rogério, homens que trocam as voltas ao óbvio. O Sr. Rogério tem muito mundo às costas e levou com o pior que a vida tem para dar. Mas endireitou-se; o Sr. Rogério conseguiu sempre endireitar-se. O Sr. Rogério é um grande homem e sabe disso. Sabe, aliás, que poucos, muito poucos, conseguiriam superar-se como ele fez e se não é o maior, o Sr. Rogério sabe que andará lá perto.

Maria estudou, nunca passou por dificuldades primárias e é aquilo que se esperava que fosse, sucedida na medida certa. Maria sabe disso. Maria sabe que não fez nenhum feito extraordinário como o Sr. Rogério. Maria sabe que lhe falta vida e mundo, mas acredita que quando tudo lhe chegar aos encontrões, se aguentará firme, aprendendo com o que não pediu e seguindo direita e mais forte.

Maria e Sr. Rogério eram, então, um duo improvável que conversavam à mesa de um restaurante. Maria cheia de teorias, Sr. Rogério cheio de práticas, entendiam-se os dois num tango em que ela media as palavras para ele não achar que lhe estariam a insinuar a sua falta de estudos, mas não perdendo ele oportunidade de lhe pisar a ela os pés naquela dança, lembrando-lhe a experiência que lhe faltava. Maria não se importava. Maria reconhecia ao Sr. Rogério legitimidade para ser assim... exibicionista de dificuldades passadas.

Nisto brincava o Sr. Rogério com um palito que partira em três partes. Conversa puxa conversa, e não sabendo muito bem como, afiançava Maria ao Sr. Rogério que apenas um triângulo se poderia construir com aqueles três pedaços. Dizia o Sr. Rogério que não, que a experiência de vida lhe dizia que se podiam construir outros triângulos, que naquele momento não estava bem a ver como havia de fazer, mas que tinha a certeza que dava. Maria dizia que não, que não dava, que alguém na Antiguidade já tinha provado teoricamente que tal seria impossível... Três comprimentos equivalem a exactamente um triângulo. Ponto! Era teórico, não havia volta a dar. Mas o Sr. Rogério dizia que não, que a sua intuição lhe dizia que não. O Sr. Rogério não cedeu. O Sr. Rogério nunca cedia. Ele tinha a certeza que Maria não tinha razão, tanto lhe dava o que a matemática tinha provado ou deixado de provar. Ele já tinha visto tanta coisa... E, lá está, tinha o Sr. Rogério direito à sua opinião.

Maria não insistiu mais. Maria lembrou-se que os triângulos são os únicos polígonos rígidos, indeformáveis, arquétipos de força e estabilidade; estruturas capazes de suportar pontes imensas e manter erguidas as Pirâmides de Gizé desde há milénios antes de Cristo... E Maria nesse momento sorriu perante a ironia de ter assim descoberto que se a vida fosse geometria, o Sr. Rogério não seria um inabalável triângulo; seria outra estrutura qualquer (acreditava que robusta), mas não um triângulo...

10 comentários:

  1. Um poder existirá, penso eu, entre aquelas grossas paredes carregadas de História.

    O anti.

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    1. Este comentário não é meu, não sei de onde veio nem por que aqui aparece.

      Eu diria:
      Nenhuma escola espoleta uma inteligência, nenhum poder supera uma vontade indómita, nenhuma força trava um objectivo determinado.

      De resto, História?!...Que se lixe a História!

      anti.

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  2. Estava a ler o belo texto e a pensar como o primeiro e o último parágrafo estão ligados, fazem um arco (não tivesse ele partido o palito, e aí teria outra base sólida, sobre as qual se construíram abóbadas de mesquitas e catedrais :)).
    Talvez seja precisamente a recusa da teoria que o tornou bem sucedido -- porque a teoria vigente na altura em que ele cresceu apontava para que ficasse... por ali... e no fim, recusou-a e levantou-se tão alto quanto conseguiu. Talvez afinal o senhor Rogério não seja um polígono, talvez pertença a outra família geométrica :)

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    1. Et voilà xilre! :) Nem sempre a indeformabilidade (?) será uma qualidade. Mesmo na arquitectura as estruturas terão de ter uma certa maleabilidade para fazerem face a sismos e outras agressões...

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    1. ...Dancemos!

      https://www.youtube.com/watch?v=QJoL5iQtVNA

      anti.

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    2. Mirone,
      Nós de saída para férias. :) Provavelmente dançaremos. Um abraço.

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  4. E o que eu gosto de estaladas de luva branca?
    (Boas férias, minha querida)

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    1. Obrigada e para ti também, babe! :)

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  5. Por acaso eu também conheço um indivíduo parecido ao senhor Rogério que do nada fez farinha, e uma vez, deveras intrigado, falei-lhe nisso; nessa coisa muito óbvia do triângulo que o sustentava.
    Riu-se na minha cara, chamou-me parvo ignorante que se estivesse à espera do triângulo para se alicerçar já tinha morrido aos cinco anos:
    - Caro amigo, - disse-me ele com um compreensivo sorriso de benevolente condescendência, - eu equilibro-me no que me der mais jeito, que é assim a modos de como quem diz; num triângulo, num quadrado, numa esfera e até na ponta de uma estaca. É no que estiver à mão de semear e que me seja mais proveitoso.
    Pasmei e aprovei.

    anti.

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